Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]
Mais um caixote para atirar para lá a tralha que anda para aqui perdida.
Tomar decisões é coisa para lhe pesar, muito, toneladas. Peso esse que não sabe como aliviar. As vítimas são, regra geral, a mãe, a irmã e uma grande almofada que faz de cabeceira na cama da mãe.
Pega na dita almofada e vai de a sovar, de a atirar ao chão, de se atirar para cima dela, qual lutador de wrestling.
Toda suada, mas ainda lixada da vida, porque não sabe se escolhe A ou se escolhe B, esfrega o corpo no chão, dá abraços que magoam e a deixam sem respirar à mãe e a seguir vai implicar com a irmã.
É difícil escolher, estando sempre a pensar nas perdas que a decisão acarreta em vez de pensar nas vantagens e nos ganhos, mas a miúda recusa-se a ver as coisas deste modo.
Chega aquela fase em que eles, os filhos, se evadem pelos buracos que encontram.
Gradual e lentamente numa questões, demasiado rápido noutras, deixamos de acompanhar o que sentem, com quem falam ou nalguns casos, não falam, deixamos de ter as poucas certezas que tínhamos.
Ficamos naquele limbo de não saber se estamos a dar-lhes espaço ou se os estamos a abandonar aos seus pensamentos e dores, que eles agora nos escondem, com medo de não serem compreendidos.
Mal eles sabem que não precisamos de fazer muito esforço para voltar aos tempos em que tudo era negro e ausente de esperança num minuto e prenhe de felicidade no seguinte.
Mas eles sabem que podem confiar em nós, que vamos ouvi-los e compreendê-los, ainda que incapazes, por vezes, de lhes dar as palavras de que precisam.
Ficamos grávidas e começamos a ler tudo sobre gravidez, parto etc.
Damos à luz e continuamos a ler tudo e queremos partilhar tudo e tudo, até criamos blogs e estamos sempre on nos instagrams desta vida.
Depois, eles crescem e há algo que nos impede de continuar a partilhar - a ideia de que aquilo que se passa com eles a partir do momento em que tomam consciência de si próprios é só deles.
Mas a vontade de partilhar, de querer saber como fazem os outros, não vai embora num passe de magia.
Faz-me falta ler, saber como fazem os outros pais e mães, como lidam com as birras dos treze e dos catorze. E não há. Paramos de partilhar.
Não está errado, mas devia haver uma forma de continuarmos ligados uns aos outros enquanto pais nesta fase tão "dramática" que é a adolescência.
Começou hoje o terceiro período.
Hoje fui encarregada de educação 80% do tempo.
Suspeito que, entretanto, terei de escolher se sou professora dos meus alunos ou encarregada de educação das minhas filhas, porque posso fazê-lo.
Não sei que fará quem não tem esta opção.
Depois do jantar e da cozinha (mais ou menos) arrumada, conduzo-as para o meu quarto. Está quentinho. Levo três livros: o meu e um para cada uma delas. A Mr. está a ler a saga Harry Potter, vai no terceiro volume, para a Gr. escolho eu para facilitar a coisa e não haver dúvidas de que tem de ler um livro de gente grande (escolhe regra geral os livros da Bia e o unicórnio, que já leu ou um qualquer com mais imagem do que texto).
Sentamo-nos na cama e lemos. Eu agarro-me às intermitências da morte de Saramago, a mais velha aos dementors (salvo seja) e a mais nova a uma aventura no supermercado. Sou interrompida pela mais velha e pelos seus brados ai que isto é mesmo assustador, ai que mete mais medo do que os filmes e pela mais nova, à medida que vai encontrando palavras escrita na ortografia pré acordo e se espanta, como se fossem palavras novas e raras.
Aquela coisa que eu defendia de não obrigar os meus filhos a ler foi pelo cano da experiência maternal abaixo, aquela teoria do Pennac de que o verbo ler não tem imperativo foi pelo mesmo caminho.
Dou por mim com os dias cheios, entre gerir casa que vive em permanente caos e gerir trabalho. Não sei se vou fazer aqueles "quadros de bom comportamento" que prometi aos miúdos, se acabo de fazer as grelhas excel, se confirmo as aprendizagens essenciais ou se termino esta ficha para aqueles dois alunos com necessidades especiais Ai! agora não posso dizer nem escrever isto, é miúdos que estão no artigo cinquenta e qualquer coisa, eu tenho-o aqui todo sublinhado, mas não há maneira de lhe fixar o número...
não sei se faça uma dessas coisas, está visto que tudo ao mesmo tempo não consigo, se vá apanhar aquela roupa e estender a que está na fila de espera do estendal, mas espera! cheira-me a xixi de gato, tenho de ir limpar a caixa da gata...
se calhar vou ali gerir aquela birra, tanta birra e pequenas obsessões,
filha, a mãe não consegue estar o tempo todo a explicar-te porque não posso ir à boxe procurar o anúncio daquele brinquedo, agora não, tu já viste a montanha de coisas que tenho de fazer? e vamos chegar atrasadas!
Mas.... espera... que falta de disponibilidade mental é esta para o que mais interessa nestas nossas vidas se escolhemos pôr filhos no mundo? esta falta de disponibilidade para educarmos os nossos filhos? de onde veio esta inversão nas prioridades? Gabriela? é mais importante chegar a tempo à escola ou fazer ver qualquer coisa importante aos teus filhos? é mais importante aquele papel ou veres com calma e atenção a ficha que a miúda te mostra, toda orgulhosa do resultado?
É mais importante arrumar a cozinha ou ir acalmar aquela filha que agora percebeu que se enganou em algo que para ela é importante?
A falta de disponibilidade mental para aquilo que realmente importa.... isso é que precisas de gerir... esquece lá a roupa, mas depois andamos nús....
esquece lá os testes que é preciso corrigir, mas depois como faço a avaliação...
que caraças de vida.
Acabar o trabalho a horas de ainda ser capaz de estar com a família. Isso é que era!
Estava difícil pôr a mais nova a ler. Tal como fiz com a Mr. nunca a obriguei a pegar num livro. Fui fazendo pressão, pouquinha, fui pondo livros no meio do caminho, mas a miúda não tinha interesse nenhum (nada de mais, a mr também demorou a ainda agora é preciso forçar um bocado a barra).
Entretanto, na escola, uma miúda apareceu com um livro de BD que metia um unicórnio. Tudo em tons de rosa, como a chavala gosta e aquilo deixou-me interessada.
Na última ida àquela grande superfície comercial que começa em F e acaba em ac, comprei-lhe o primeiro da coleção. Já vai a mais de meio. E é muito gira vê-la concentrada, com a cabeça mergulhada no livro.
Estou também a dever dinheiro à Mr. porque subornei-a para ler um da Alice Vieira e ela já vai para o segundo, tendo gostado do primeiro (Paulina ao piano).
Não me lembro de alguma vez ter sido subornada pelos meus progenitores para ler, mas ei! vale tudo na guerra a favor da aculturação das camadas mais jovens!
Na senda do uso de telemóveis (smartphones) na escola, dou por mim a pensar: será que estas questões só me perturbam a mim, será que para a maioria dos pais é ponto assente que os filhos andem sempre de telemóvel, será que sou só eu que acho que os pais devem "invadir" a privacidade dos filhos para controlar o que andam a ver e a fazer?
Aqui há uns tempos, numa reunião de pais, uma mãe disse qualquer coisa como: se a escola proibisse os miúdos de trazerem telemóveis é que era bom...
Sem pensar muito, respondi assim um bocado à bruta que nós (pais e mães) é que tínhamos de os proibir ou não de levar o "bicho" para a escola, que esta nem sequer tem condições para levar a cabo proibições desse âmbito. Creio que o que a senhora queria era ficar livre da culpa e do peso de ter de ser ela a impor essa proibição, seria muito fácil passar a batata quente à escola.
E pumbas! lá vêm os meus debates interiores: nós pais é que temos de ter espinha dorsal suficientemente dura para, uma vez acreditando em determinado princípio, ser capaz de o levar até ao fim (com a devida sensatez). Ou não?
Depois, voltando à "invasão de privacidade": dou um smartphone ao meu filho apenas quando tiver plena confiança no uso que ele lhe vai dar ou dou-lho, cedendo à pressão que ele me faz (toda a gente tem menos eu!!) e porque é conveniente também para mim saber que ele está sempre contactável e depois coíbo-me de controlar, porque ah e tal, não quero invadir o espaço dele... ?
Não sei como pensarei daqui a uns três anos, mas para já defendo que nós pais temos o dever de "invadir" a privacidade dos nossos filhos. Serei uma besta?
Seremos sempre mães e pais de primeira viagem.
Porque eles são diferentes uns dos outros, porque as várias idades vão trazendo fases, como eu gosto de lhe chamar, porque eles e elas registam as coisas e processam de forma diferente, porque ainda que desejemos ser iguais e atuar de forma semelhante com os nossos filhos, somos diferentes, vamos constantemente em busca de adaptações, correções, eu sei lá.
Seremos sempre pais em construção e é assim que tem de ser.
Como se não fossem suficientes as ferramentas que eles têm ao seu dispor para se magoarem, triturarem, torturarem e manipularem uns aos outros, ainda lhes damos telemóveis onde criam grupos de whatsapp, onde se incluem uns aos outros e excluem de forma aleatória ou com base nos seus preconceitos e ignorâncias típicas da idade, criando traumas pessoais e sociais cuja fatura nós, pais, vamos ter de pagar, mais tarde ou mais cedo.
Em psicólogos ou em mais culpa para carregar.
Tirem-lhes os telemóveis, pôrra!
A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.